Pela verdade desportiva - Oligarcas, permutas de jogadores e aquisições

" Contudo, como em todos os negócios, a situação é precária e pode mudar a qualquer momento, com os oligarcas a abandonarem os clubes que presentemente patrocinam, deixando atrás de si o caos e dívidas descomunais.
Porque, no fim de contas, o futebol não é exactamente o jogo deles. "

Entrar no jogo: pela Rússia, pelo dinheiro e pelo poder
Jim Riordan – Análise Social, vol. XIL (179), 2006, 477-498
Tradução de Rui Cabral

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As manobras de Pinto da Costa - " A carraça "

Veja-se que bastou ficar três anos seguidos sem ganhar o campeonato, de 2000 a 2003, com inúmeros problemas com treinadores e jogadores, para Pinto da Costa começar a ser contestado pelos adeptos anónimos (claque Super Dragões principalmente), como nunca o fora. Esses três anos foram muito duros, com esperas à porta do estádio e insultos aos dirigentes, treinadores e jogadores.
Já em 1995, o clube tinha retirado apoio à claque devido a incidentes num jogo em Guimarães. Entre 2000 e 2002, as bocas à administração, jogadores e treinadores à porta do estádio são duras. “Foram vender perus para comprar pintainhos”, “Vai-te embora, ó mouro.”, “Têm de ser responsabilizados quando algo está mal.”, “Vocês são uma vergonha!”, “Os problemas têm mais a ver com a SAD do que com o treinador.”, “Vamos apoiar o que resta do FC Porto: as camisolas.”, “Já não existem jogadores à Porto.”, “Esperamos que os jogadores correspondam em campo, caso contrário, sabemos como pedir-lhes contas.”, “Os problemas do FC Porto foram sendo encobertos durante muito tempo pelas vitórias, por isso é que o clube está como está…”, “SAD rua!”,
“Ó Pinto da Costa, podes ir andando.” e “Joguem à bola!” são alguns dos mimos que a claque Super Dragões distribui e que se podem ler nos jornais.
A tensão é tão grande que, num certo jogo, em Setembro de 2000, após as críticas públicas dos Super Dragões, aparecem no local onde costumam ficar no estádio indivíduos estranhos à claque, que a mesma identifica como “seguranças da noite do Porto”. Muitas vezes apelidada de corpo de intimidação de Pinto da Costa, não deixa de ser curioso ver os Super Dragões acusarem Pinto da Costa de os estar a intimidar. Só que um golpe de mestre leva-o a apostar em José Mourinho e as vitórias voltam. No dia 5 de Maio de 2003, na festa do título, iria confessar ao Record: “Já me tinham feito o funeral…”

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As manobras de Pinto da Costa, Apito Dourado: novos excertos

“Não me arrependo de nada do que fiz. Nem sequer do apoio intransigente e leal que sempre dei àqueles mesmos que agora, feridos nas suas vaidades, nos seus orgulhos e nas suas ambições de poder, descem ao insulto, em que, necessariamente, não entro.”
(Américo Sá)

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"A Comissão de Arbitragem da Liga passa ao ataque. Solicita à Comissão Disciplinar do mesmo organismo que abra um processo disciplinar contra Rui Mendes por “declarações falsas e intenções maldosas”. Também não perdoa a Pimenta Machado a sua intervenção na sede da Comissão de Arbitragem e, com base em declarações não provadas, faz do presidente do V. Guimarães uma participação à mesma Comissão Disciplinar."

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As manobras de Pinto da Costa continuam a ser reveladas

" Não demora muito a chegar a primeira das muitas traições de que seria acusado no futuro: foi falar com Pedroto e convidou-o para treinador do FC Porto. O problema é que Pedroto era na altura técnico do Boavista, e a contratação faz-se em segredo e à revelia de Pinto de Sousa, amigo íntimo do dirigente dragão. O axadrezado perdoa a desfeita e os dois até fazem um acordo de não agressão para o futuro. Pinto de Sousa fica descansado. A razão é óbvia e é dita pelo próprio Pinto da Costa na sua biografia quando fala de Pinto de Sousa: “Meu amigo de infância e homem de invulgar carácter”.
O descanso do boavisteiro revela-se fatal. "

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Apito Dourado, As manobras de Pinto da Costa, Entrar no jogo e Golpe de Estádio em destaque aqui.

Apito Dourado - Capítulo I : 1 – A revolta de Rui Mendes

Havia um compreensível entusiasmo entre os passageiros do automóvel que tomara, nessa manhã de Outubro, o caminho do Alentejo.
Para Rui José de Sousa Vieira Mendes, vindo de Ariz, no concelho de Marco de Canavezes, a viagem começara na véspera. A noite fora passada em Lisboa, no Hotel Altis, nas Olaias, primeira etapa de uma nova vida. Fora em Lisboa que se juntara aos seus companheiros de jornada, José Borges, que vivia na capital, e Victor Oliveira e Luís Miranda, chegados de Torres Vedras.
De certa forma pode dizer-se que estes o apadrinhavam.
Enquanto conduzia a sua viatura rumo a Campo Maior, Rui Mendes não terá deixado de pensar que estava à beira de dar um passo importante na sua carreira de árbitro de futebol. Bancário de profissão, exercendo funções num balcão Nova Rede do BCP em Alpendorada, via-se, pela primeira vez, chamado a dirigir um encontro da I Liga.
Estávamos no dia 1 de Outubro de 2000. Disputava-se a 6ª Jornada do campeonato português. Rui Mendes fora sorteado para o jogo entre o Campomaiorense e a União de Leiria. José Borges e Victor Oliveira seriam os seus assistentes; Luís Miranda o quarto árbitro. Ao contrário de Rui Mendes, ainda um noviço nestas lides do futebol maior, todos os outros tinham já larga experiência. Sobretudo este último, Luís Miranda. A equipa que se reunira em Lisboa nunca tinha trabalhado junta.
O som do telemóvel interrompeu a mecânica do percurso. Rui Mendes, que conduzia, passou o aparelho a Luís Miranda, sentado a seu lado. A voz que se fez ouvir era de alguém bem conhecido de todos os passageiros da viatura: Nemésio de Castro, conterrâneo de Victor Oliveira e Luís Miranda, membro do Conselho de Arbitragem da Liga de Futebol Profissional. Queria, antes do jogo, dar um abraço de apoio ao estreante, pelo que ficou combinado encontrarem-se entre as 11 horas e o meio-dia numa área de serviço próxima de Elvas.
Nemésio de Castro não aceitou um convite para o almoço. Vinha apressado. Acompanhado pela esposa, que o esperou no carro, desculpou-se com uma visita a casa de familiares que viviam na região.
A conversa foi, por isso, breve. Desejos de bom trabalho e de uma estreia auspiciosa para Rui Mendes. E um alerta especial ao qual este, na altura, não atribuiu importância inusitada: o jogo poderia ser complicado, visto os dois adversários estarem mal classificados, mas a maior complicação poderia advir do facto de o treinador do Campomaiorense, Carlos Manuel, estar, em caso de derrota, sob o espectro da demissão.
Os quatro árbitros seguiram viagem. Tinham planeado almoçar num restaurante em Elvas, o Zé dos Frangos, e assim o fizeram. Foi com surpresa que, ao entrar no restaurante, Rui Mendes vislumbrou Nemésio de Castro sentado noutra mesa. Sabia que ele iria assistir ao encontro, mas não deixou de estranhar a coincidência. Como já tinham conversado na área de serviço, ficaram-se por cumprimentos distantes.
Rui Mendes saiu de Campo Maior com a consciência do dever cumprido. Na sua visão, fizera um trabalho de qualidade. Os colegas pareciam ser da mesma opinião e não lhe regatearam elogios. Os jornais fizeram-lhe boas referências; Manuel José, técnico da União de Leiria, dedicou-lhe palavras simpáticas.
O resultado fora um empate: 1-1.
Não podia, portanto, deixar de sentir uma certa alegria. Fácil de entender.
Alegria que se transformou em tristeza ao tomar conhecimento da delegacia, isto é, a avaliação do observador da Liga ao seu trabalho. Recebeu-a por carta e era da responsabilidade de Manuel Rodrigues, de Portalegre: em 150 pontos possíveis eram-lhe atribuídos 124. A pontuação de 130 costuma ser atribuída a um “trabalho normal”.
Rui Mendes não ficou apenas triste. Ficou revoltado. Sentiu que havia uma franca injustiça na avaliação que lhe fora feita.
Ao mesmo tempo, ecoaram-lhe na cabeça as palavras de Nemésio de Castro, ao final da manhã, na área de serviço perto de Évora: o jogo poderia ser complicado, visto os dois adversários estarem mal classificados, mas a maior complicação poderia advir de o facto de o treinador do Campomaiorense, Carlos Manuel, estar, em caso de derrota, sob o espectro da demissão.
E embora nada houvesse nelas de verdadeiramente censurável, não deixou de as ler perante uma nova luminosidade e descobrir nelas outros significados.
No dia 10 de Novembro, Rui Mendes estava em Leiria para uma reunião de árbitros. Foi com naturalidade que reencontrou Nemésio de Castro e o assunto da sua arbitragem em Campo Maior não deixou, como era de esperar, de vir à baila. Nemésio de Castro fugiu à discussão: que não prestara atenção ao seu trabalho; que estivera atento ao trabalho dos seus assistentes; que não tinha opinião sobre a matéria.
A revolta de Rui Mendes cresceu.
A injustiça de que se sentia alvo fê-lo avançar. Procurou contactar o presidente da Liga de Clubes, e seu responsável máximo, o major Valentim Loureiro. Debalde. Durante várias semanas desdobrou-se em tentativas infrutíferas. Finalmente, acabou por receber um telefonema: era de José Luís Oliveira, vice-presidente da Câmara Municipal de Gondomar. O tempo passara: estávamos a 2 de Abril de 2001.
Combinou com ele uma audiência com o major Valentim Loureiro, que além de presidente da Liga era presidente da Câmara Municipal de Gondomar, e nesse mesmo dia, ao final da tarde, na sede da autarquia, José Luís Oliveira conduziu-o ao major Valentim Loureiro ao qual pôde expor a situação que o afligia.
Rui Mendes recebeu da parte do presidente da Liga uma calorosa solidariedade. O major recriminou-o pelo facto de não ter divulgado a situação mais cedo e declarou-lhe que havia fundadas suspeitas de que Nemésio de Castro andasse a exercer influências sobre os árbitros no sul do País; e tendo Rui Mendes desabafado que se encontrava injustamente mal classificado, o major Valentim Loureiro descansou-o dizendo que a situação podia ser complicada mas não era de modo algum irreversível.
Posto isso, telefonou a um funcionário da Liga para que lhe fosse colocada à disposição toda a documentação referente ao Campomaiorense-U. Leiria.
Foi de certa forma aliviado que Rui Mendes se despediu do major Valentim Loureiro e ficou na companhia de José Luís Oliveira, que o levou para o seu gabinete no município de forma a poderem continuar a conversa, agora apenas a dois.
Era agora a vez de José Luís Oliveira, também presidente do Gondomar Sport Clube, entrar em desabafos. O Gondomar estava à beira de ser sancionado disciplinarmente; que isso trazia preocupações aos seus dirigentes; que havia uma necessidade imperiosa de vitórias. E aproveitou para perguntar a Rui Mendes se este estava disposto a arbitrar o jogo do Gondomar no domingo seguinte.
A conversa era subtilmente dirigida.
Rui Mendes respondeu que estava sempre pronto para arbitrar jogos para os quais fosse chamado.
José Luís Oliveira descansou-o: a delegacia seria controlada, era seguro que teria boa classificação nesse jogo. Mas, desta vez, o alerta era bem claro: o Gondomar tinha de ganhar e Rui Mendes teria de ajudar, se preciso fosse.
Rui Mendes aceitou. Negócio selado.
Por estes factos, Rui José de Sousa Vieira Mendes
seria constituído arguido no dia 30 de Agosto de 2001…
José Luís Oliveira pega no telefone. A sua conversa é curta. Diz apenas algo como isto: o homem aceita, é preciso nomeá-lo para o próximo jogo do Gondomar; e para a semana seguinte há que nomear o Vasco Vilela.
Despedem-se cordialmente enquanto tomam uma bica num café em frente à Câmara Municipal de Gondomar.
Rui Mendes é nomeado pelo Conselho de Arbitragem da Federação Portuguesa de Futebol (por se tratar de um jogo referente à II Divisão B) para o Trofense-Gondomar, a disputar na Trofa, no dia 8 de Abril de 2001.
Os seus auxiliares foram Leão Duarte e Alexandre Freitas.
Rui Mendes não fazia tenções de beneficiar qualquer das equipas, a despeito do acordo feito com José Luís Oliveira. Mais uma vez, saiu de campo com a consciência tranquila: o jogo fora duro, quezilento, mas ele procurou sempre actuar com isenção. O resultado final foi um empate: 1-1.
A delegacia, feita pelo observador Joaquim Silva, voltou a traduzir-se numa fraca pontuação, a seu ver injusta.
Rui Mendes não se rendeu às evidências.
Estava disposto a actuar e actuou. Perante as divergências que sabia existir entre o major Valentim Loureiro e o Dr. Pimenta Machado, entrou em contacto com este, apesar de não o conhecer pessoalmente, e recebeu dele uma declaração de apoio.
Pimenta Machado ouviu de Rui Mendes a história de todos os factos relatados até aqui. E mostrou-se receptivo a fazer a denúncia junto da Liga de Clubes, apesar dos meses que já estavam decorridos sobre o triste episódio da área de serviço da auto-estrada de Elvas.
Rui Mendes continuou a alertar algumas figuras gradas do futebol português para a injustiça do seu caso: expondo-o por carta.

A Gloriosasfera agradece à editora Zebra Publicações a gentileza do envio deste excerto do livro.

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